Uma indústria peculiar e diferente das demais
Produzir fotografias dentro de uma fábrica farmacêutica especializada em medicamentos hormonais é muito diferente de documentar uma indústria convencional.
Antes mesmo da primeira fotografia, é preciso compreender que praticamente tudo naquele ambiente é orientado por protocolos de segurança, contenção e controle de contaminação.
Foi nesse contexto que fui contratado para registrar a unidade do Aché Laboratórios Farmacêuticos localizada no Distrito Agroindustrial de Anápolis (DAIA), em Goiás. O trabalho fazia parte da produção do relatório anual da companhia.
Enquanto outra equipe desenvolvia a maior parte do projeto editorial em outras unidades da empresa, minha missão era produzir exclusivamente as imagens da operação instalada em Goiás.
Embora a participação estivesse restrita a apenas uma unidade industrial e a um único dia de produção, o resultado acabou ocupando posição de destaque na publicação final. Uma das fotos foi utilzada na capa do relatório anual.
Antes da primeira fotografia
A primeira dificuldade apareceu antes mesmo de ligar a câmera. Para acessar as áreas de produção era obrigatório utilizar o mesmo conjunto de equipamentos de proteção empregado pelos operadores da fábrica. Não havia distinção entre funcionários e equipe de fotografia. Quem entrava na área produtiva precisava seguir exatamente os mesmos protocolos.
Vestir aquele equipamento pela primeira vez provocou uma sensação curiosa. O traje era relativamente leve, mas completamente hermético. Poucos minutos depois de fechado, vieram o calor, a limitação dos movimentos e uma discreta sensação de claustrofobia.
O sistema de respiração também fazia parte da rotina. Em vez de respirar o ar do ambiente, permanecíamos conectados a uma rede de alimentação de oxigênio por meio de uma mangueira flexível acoplada ao traje.
Sempre que precisávamos atravessar um setor da fábrica, era necessário desconectar a mangueira de um ponto da rede e conectá-la novamente no ambiente seguinte antes de prosseguir. Naquele momento ficou claro que fotografar seria apenas parte do desafio.
Restrições que afetaram o fluxo de trabalho
Além das limitações impostas pelos equipamentos de proteção, o trabalho precisava respeitar uma série de procedimentos internos da fábrica.
Não era permitido entrar nas áreas produtivas com mochila ou qualquer volume desnecessário. A troca de lentes durante a cobertura também era proibida, obrigando todo o planejamento técnico a ser definido antes da entrada em cada ambiente.
Equipamentos, distância focal, iluminação e sequência de imagens eram definidos antes de atravessar as barreiras de acesso.
Ambientes à prova de contaminação
A unidade de Anápolis é dedicada à fabricação de medicamentos hormonais, uma atividade que exige padrões de segurança muito superiores aos encontrados em boa parte da indústria farmacêutica.
Os ambientes são cuidadosamente isolados, os fluxos de circulação são controlados e cada etapa do processo é planejada para evitar que os princípios ativos presentes durante a fabricação entrem em contato com outras áreas da planta ou exponham os profissionais responsáveis pela operação.
Essa realidade determina também a forma como a fotografia pode ser realizada. O fotógrafo deixa de ser apenas um observador e passa a integrar temporariamente o protocolo de funcionamento da fábrica.
Usando a mesma proteção dos operadores da fábrica
Para acessar as áreas produtivas, eu e meu assistente utilizamos exatamente os mesmos equipamentos de proteção empregados pelos operadores da fábrica.
A roupa especial incluía um sistema de respiração com alimentação de ar, além de proteção integral do corpo, limitando significativamente os movimentos. Operar uma câmera fotográfica nessas condições exige adaptação constante.
Atividades simples, como alterar velocidade, abertura, ISO ou revisar uma fotografia no visor, tornam-se muito mais lentas quando as mãos estão protegidas por várias camadas de equipamentos de segurança.
O mesmo acontecia com a iluminação. Meu assistente precisava operar o flash remoto utilizando o mesmo conjunto de EPIs, o que reduzia a agilidade durante cada mudança de posição e exigia planejamento antes de cada fotografia.

Luz difícil, espaços reduzidos e pouco tempo
Do ponto de vista fotográfico, praticamente todos os fatores trabalhavam contra uma cobertura usual.
Os corredores estreitos limitavam os ângulos disponíveis.
As salas de produção apresentavam iluminação predominantemente técnica, projetada para operação industrial, não para fotografia. As superfícies claras produziam reflexos constantes, enquanto os equipamentos de proteção escondiam boa parte da expressão facial dos operadores.
Ao mesmo tempo, o cronograma permitia pouco tempo em determinados setores da fábrica, reduzindo as oportunidades de repetir uma cena até alcançar o resultado desejado.
Essas limitações exigiram uma abordagem extremamente objetiva. Cada fotografia precisava ser resolvida rapidamente, preservando tanto a naturalidade da operação quanto a precisão técnica da iluminação.
Um retrato completo da operação
Durante a diária foram produzidas aproximadamente 80 fotografias finais. O material contemplou diferentes aspectos da unidade industrial, incluindo linhas de produção, laboratórios, equipamentos, operadores, detalhes de processos, blisters, tubos de ensaio, arquitetura industrial e registros do ambiente fabril.
A intenção era construir uma narrativa visual capaz de mostrar não apenas a tecnologia empregada na fabricação dos medicamentos, mas também o rigor dos processos e das condições de trabalho.

Uma comunicação diferente
Conversar com os operadores também fazia parte do desafio. Os equipamentos de proteção dificultavam a comunicação verbal e, em muitos momentos, gestos funcionavam melhor do que palavras.
Embora boa parte das fotografias tenha sido realizada durante a rotina normal de produção, em determinadas cenas eu precisava orientar os colaboradores para reforçar aspectos visuais da composição.
Não se tratava de interromper o trabalho ou criar situações artificiais. O objetivo era apenas explorar melhor a força gráfica daqueles trajes, das linhas da arquitetura industrial e da iluminação do ambiente, preservando sempre a autenticidade da operação.
O resultado
Ao final da diária foram entregues aproximadamente 80 fotografias. O material registrou laboratórios, linhas de produção, operadores, equipamentos, blisters, tubos de ensaio, arquitetura industrial e diferentes etapas do processo fabril.
Mais que documentar a unidade industrial, o objetivo era revelar um ambiente pouco conhecido pelo público, onde tecnologia, segurança e precisão fazem parte da rotina.
O destaque recebido pelas imagens dentro do relatório anual demonstrou que, mesmo em um projeto desenvolvido em apenas um dia, é possível produzir fotos capazes de representar a identidade visual de uma publicação corporativa.







CURIOSIDADE
O momento em que a fotografia aparece

Ao longo do dia houve várias ocasiões em que, depois de olhar o visor da câmera, eu dizia ao meu assistente:
"Essa valeu."
Uma dessas imagens mostrava um operador completamente equipado caminhando pelos corredores da fábrica, envolvido pelo branco quase absoluto do ambiente e conectado ao sistema de respiração por uma mangueira que acompanhava seus movimentos.
A fotografia sintetizava exatamente aquilo que tornava aquela unidade diferente de qualquer outra indústria que eu havia fotografado até então.
Quando o relatório anual foi concluído, foi justamente essa imagem que abriu a publicação na capa.
Ver uma fotografia produzida durante uma cobertura complementar tornar-se a principal imagem editorial do projeto foi a confirmação de que havíamos conseguido traduzir visualmente a identidade daquela operação.
GALERIA DO PROJETO
Veja mais imagens desse trabalho

Informações do projeto
CLIENTE
Grupo Achè
SEGMENTO
Indústria Farmacêutica
LOCAÇÃO
Distrito Agroindustrial de Anápolis (DAIA), GO
USO DAS IMAGENS
Relatório Anual
PRODUTORA EXECUTIVA
Empório Imagem
FOTOGRAFIA
Enio Tavares
Fotografia corporativa com planejamento, direção e execução alinhados à estratégia de comunicação do cliente.
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